Dor muscular tardia — o que é, por que acontece e como acelerar a recuperação

Entenda o que é dor muscular tardia, por que ela acontece — não é ácido lático — quanto tempo dura e as melhores estratégias baseadas em ciência para acelerar a recuperação muscular após o treino.

3/24/202617 min read

Índice do artigo

  1. O que é dor muscular tardia

  2. Por que a dor muscular tardia acontece — a ciência real

  3. Quando a dor muscular tardia aparece e quanto tempo dura

  4. Dor muscular tardia é sinal de bom treino?

  5. Fatores que influenciam a intensidade da dor

  6. Como acelerar a recuperação muscular

  7. O que fazer e o que evitar quando estiver com dor muscular tardia

  8. Quando a dor muscular é sinal de algo mais sério

  9. Dor muscular tardia e frequência de treino

  10. FAQ — Perguntas frequentes

Introdução

Você treinou pesado, deu tudo de si na academia ou em casa — e no dia seguinte, ou dois dias depois, acordou com aquela dor característica nos músculos que trabalhou. Subir escadas virou desafio. Levantar os braços ficou difícil. Sentar no banheiro tornou-se uma operação de guerra.

Bem-vindo ao universo da dor muscular tardia — ou DOMS, do inglês Delayed Onset Muscle Soreness.

É uma das experiências mais universais de quem pratica exercício físico. E também uma das mais mal compreendidas. Por décadas, o senso comum atribuiu essa dor ao acúmulo de ácido lático nos músculos. Essa explicação está errada — e a ciência sabe disso há bastante tempo. A verdade sobre o que causa a dor muscular tardia é mais complexa e, ao mesmo tempo, mais interessante.

Entender o que realmente acontece no músculo quando a dor aparece, por que ela piora no segundo dia, quanto tempo dura, o que acelera a recuperação e quando é sinal de algo além do treino normal é o que vai transformar sua relação com essa sensação — e sua capacidade de treinar com mais inteligência e consistência.

1. O que é dor muscular tardia

A dor muscular tardia é a sensação de desconforto, rigidez e sensibilidade muscular que aparece horas após um treino intenso — geralmente entre 12 e 24 horas depois — e atinge seu pico de intensidade entre 24 e 72 horas após o exercício.

O termo "tardia" é justamente o que a diferencia da dor muscular aguda — aquela queimação imediata durante o exercício, causada pelo acúmulo de metabólitos como lactato e íons de hidrogênio durante o esforço. A dor aguda desaparece minutos após o término do exercício. A dor tardia começa depois — às vezes muito depois — e persiste por dias.

As características típicas da dor muscular tardia incluem sensação de rigidez e peso muscular, dor ao toque na região afetada, redução temporária da força e amplitude de movimento, leve inchaço local e sensação de "cansaço profundo" no músculo mesmo em repouso.

A DOMS pode aparecer em qualquer músculo do corpo — mas é mais comum nos grupos musculares que foram submetidos a um estímulo novo, mais intenso do que o habitual ou com foco maior na fase excêntrica do movimento — a fase de alongamento sob carga, que vamos detalhar na próxima seção.

2. Por que a dor muscular tardia acontece — a ciência real

Durante décadas, a explicação popular para a dor muscular tardia foi o acúmulo de ácido lático nos músculos. Essa teoria é factualmente incorreta — e sua refutação é bem estabelecida na literatura científica.

O ácido lático — mais precisamente o lactato — é produzido durante o exercício intenso como subproduto do metabolismo anaeróbico. Mas o lactato é rapidamente removido da circulação — na maior parte convertido em energia pelo fígado e pelo coração — em até uma hora após o exercício. É fisiologicamente impossível que o lactato cause dor que aparece 12 a 48 horas depois.

Então o que realmente causa a dor muscular tardia?

Microlesões nas fibras musculares

A explicação mais bem sustentada pela ciência atual é que a dor muscular tardia resulta de microlesões estruturais nas fibras musculares e no tecido conjuntivo ao redor delas — causadas pelo estresse mecânico do exercício.

Essas microlesões não são danos patológicos — são o estímulo fisiológico necessário para a adaptação muscular. É o processo pelo qual o músculo é forçado a se reconstruir de forma mais forte e resistente do que antes. Sem microlesões, não há adaptação. Sem adaptação, não há crescimento.

O papel especial da fase excêntrica

As microlesões são mais intensas durante a fase excêntrica do exercício — quando o músculo está se alongando sob carga. Exemplos: a fase de descida do agachamento, a fase de descida da flexão de braço, a fase de retorno no curl de bíceps, a fase de descida no levantamento terra.

Durante a contração excêntrica, um número menor de fibras musculares é recrutado para suportar a mesma carga — o que significa que cada fibra ativa suporta mais tensão individualmente. Isso resulta em maior estresse mecânico por fibra e, consequentemente, mais microlesões e mais dor tardia.

É por isso que exercícios com ênfase excêntrica — descer devagar, controlar o peso na volta — geram mais DOMS do que exercícios com ênfase concêntrica.

A resposta inflamatória

Após as microlesões, o sistema imunológico desencadeia uma resposta inflamatória localizada para reparar o tecido danificado. Macrófagos e neutrófilos migram para o tecido muscular lesionado, liberam citocinas pró-inflamatórias e iniciam o processo de limpeza e reparo celular.

Essa resposta inflamatória é o mecanismo central da dor tardia — ela ativa os nociceptores locais, aumenta a sensibilidade à pressão e ao movimento e produz a rigidez e o desconforto característicos da DOMS.

É também o motivo pelo qual anti-inflamatórios como o ibuprofeno reduzem a dor muscular tardia — eles inibem a cascata inflamatória. Mas aqui existe um paradoxo importante, que vamos abordar mais adiante: reduzir a inflamação pode reduzir a dor, mas também pode interferir com o processo de adaptação muscular que você estava buscando ao treinar.

Dano ao tecido conjuntivo

Além das fibras musculares em si, o tecido conjuntivo ao redor do músculo — fascia, tendões e tecido intersticial — também sofre microlesões durante o exercício intenso. Esses tecidos têm menor vascularização do que o tecido muscular, o que significa que a resposta inflamatória e a remoção de metabólitos acontecem mais lentamente — contribuindo para a persistência da dor por dois a quatro dias.

3. Quando a dor muscular tardia aparece e quanto tempo dura

Compreender o cronograma típico da DOMS ajuda a planejar o treino de forma mais inteligente e a não se alarmar quando a dor piora no segundo dia.

Primeiras 6 a 12 horas após o treino

Em geral, nenhuma dor significativa. O músculo pode estar levemente fatigado, mas a resposta inflamatória ainda está nos estágios iniciais. Muitas pessoas terminam o treino, dormem bem e acordam sem dor — para encontrar a dor no segundo dia.

12 a 24 horas após o treino

A dor começa a aparecer. A resposta inflamatória está em pleno andamento. A rigidez muscular começa a ser perceptível, especialmente após períodos de inatividade — ao acordar, ao levantar após ficar sentado por muito tempo.

24 a 48 horas após o treino — pico da dor

Este é o período de maior intensidade da DOMS para a maioria das pessoas. A resposta inflamatória atingiu seu pico. A sensibilidade ao toque e ao movimento está no máximo. A força muscular pode estar temporariamente reduzida em até 20 a 50% em treinos que geraram DOMS intensa.

48 a 72 horas após o treino

A dor começa a diminuir gradualmente à medida que a resposta inflamatória recua e o processo de reparo muscular avança. Para a maioria das pessoas e estímulos habituais de treino, a dor começa a ceder perceptivelmente nessa janela.

72 a 96 horas após o treino

Para a maioria das situações, a dor está próxima de zero ou completamente resolvida. Treinos extremamente intensos, movimentos muito novos ou pessoas com recuperação mais lenta podem ter DOMS persistindo até o quinto ou sexto dia — mas isso é menos comum.

Quando dura mais de uma semana

Dor muscular que persiste além de sete dias raramente é DOMS. Pode indicar lesão muscular mais séria, como distensão ou ruptura parcial de fibras, e merece avaliação por profissional de saúde.

4. Dor muscular tardia é sinal de bom treino?

Essa é uma das perguntas mais frequentes — e a resposta é mais nuançada do que o senso comum sugere.

A crença de que "sem dor não há ganho" — do inglês no pain, no gain — é uma das mais persistentes e mais problemáticas do universo fitness. Ela leva muitas pessoas a acreditar que dor muscular intensa após o treino é indicador obrigatório de resultado, e que treinos sem dor foram "perdidos".

Essa crença é incorreta em dois sentidos importantes.

DOMS não é obrigatória para crescimento muscular

Estudos sobre hipertrofia muscular demonstram que o crescimento acontece em resposta ao estímulo mecânico e metabólico do treino — e esse estímulo pode existir sem que a DOMS seja percebida. Praticantes experientes frequentemente ganham massa muscular com treinos que não geram dor perceptível, porque seus músculos já se adaptaram ao estímulo e as microlesões — embora ainda presentes — são menores e a resposta inflamatória é mais eficiente.

Ausência de DOMS não significa treino ineficaz

Quando você repete um estímulo de treino com frequência, o músculo se adapta e a resposta inflamatória diminui — não porque o treino ficou menos eficaz, mas porque o tecido está mais preparado para aquele estímulo. Esse fenômeno é chamado de efeito de adaptação ao treinamento excêntrico — e é um sinal de progresso, não de estagnação.

O que DOMS realmente indica

A presença de DOMS indica que o músculo recebeu um estímulo novo ou mais intenso do que estava adaptado — o que é frequentemente associado a adaptação muscular. Em iniciantes, a DOMS é quase inevitável nas primeiras semanas de treino. Em praticantes que mudam de programa, adicionam exercícios novos ou aumentam significativamente o volume ou a carga, a DOMS pode reaparecer.

A DOMS é um indicador de novidade do estímulo — não de qualidade ou eficácia do treino.

Quando DOMS intensa é um problema

DOMS muito intensa e frequente pode indicar que o volume de treino está além da capacidade de recuperação atual. Se você tem dor muscular intensa consistentemente após todos os treinos, que interfere com a qualidade das sessões seguintes, é sinal de que o volume ou a frequência de treino está acima do ótimo para o seu nível de recuperação.

5. Fatores que influenciam a intensidade da dor

Nem todo mundo experimenta a mesma intensidade de DOMS após treinos equivalentes — e nem o mesmo treino produz a mesma dor todas as vezes. Vários fatores modulam a intensidade da resposta.

Nível de condicionamento e experiência de treino

Iniciantes têm respostas inflamatórias mais intensas a estímulos de treino porque seus músculos e tecidos conjuntivos ainda não desenvolveram os mecanismos de adaptação de praticantes experientes. Uma carga que causa dor intensa em um iniciante pode não causar dor perceptível em alguém com três anos de treino consistente.

Novidade do estímulo

O músculo responde com mais inflamação a movimentos novos — que recrutam fibras e padrões motores não habituados — do que a movimentos familiares. Iniciar um programa novo, adicionar um exercício diferente ou mudar a faixa de repetições podem gerar DOMS intensa mesmo em praticantes avançados.

Ênfase na fase excêntrica

Como discutido anteriormente, treinos com ênfase excêntrica — descidas lentas, liberações controladas, exercícios com grande amplitude excêntrica — geram mais DOMS do que treinos com maior ênfase concêntrica.

Volume e intensidade do treino

Mais séries, mais repetições e cargas mais pesadas do que o habitual geram mais microlesões e, portanto, mais DOMS. Aumentar o volume de treino em 20 a 40% em uma única sessão frequentemente resulta em DOMS mais intensa do que o normal.

Estado nutricional e proteína

Ingestão proteica inadequada antes e após o treino significa menos aminoácidos disponíveis para o reparo das microlesões — o que pode prolongar a duração da DOMS. Proteína adequada não elimina a dor, mas contribui para uma recuperação mais rápida.

Qualidade do sono

O hormônio do crescimento — principal agente do reparo tecidual — é secretado predominantemente durante o sono profundo. Privação de sono prolonga a DOMS e reduz a eficiência do processo de reparo muscular.

Genética

Existe variabilidade genética significativa na resposta inflamatória ao exercício — algumas pessoas produzem DOMS mais intensa e prolongada do que outras para estímulos equivalentes. Essa variabilidade não é controlável, mas é importante reconhecê-la para evitar comparações inadequadas.

6. Como acelerar a recuperação muscular

Embora a DOMS seja um processo natural com cronograma próprio, existem estratégias com evidência científica que reduzem a intensidade e a duração da dor e aceleram a recuperação muscular.

Movimento ativo leve — a estratégia mais eficaz

Movimentar o músculo com dor de forma leve e suave é paradoxalmente uma das melhores formas de acelerar a recuperação. O movimento leve aumenta o fluxo sanguíneo local, acelera a remoção de metabólitos inflamatórios e reduz a rigidez muscular sem adicionar estresse ao tecido em reparo.

Caminhada leve, ciclismo leve, natação relaxada, mobilidade articular e alongamento suave — qualquer atividade de baixa intensidade que movimente o músculo afetado sem causar dor intensa — são estratégias eficazes de recuperação ativa.

Proteína e nutrição adequadas

O reparo das microlesões musculares exige aminoácidos em abundância. Manter a ingestão proteica entre 1,6 e 2,2 g por kg de peso corporal nos dias de recuperação — distribuída em quatro a cinco refeições ao longo do dia — fornece os blocos de construção necessários para o processo de reparo muscular.

A leucina em particular — presente em altas quantidades em proteínas animais e whey protein — é o aminoácido que funciona como gatilho principal da síntese proteica muscular e tem papel especialmente relevante durante o reparo pós-DOMS.

Hidratação adequada

Músculos com dor são músculos em processo inflamatório ativo. Manter hidratação adequada facilita o transporte de nutrientes para o tecido em reparo e a remoção de metabólitos inflamatórios. Pelo menos dois litros de água por dia — com acréscimo se houver treino ou condições de calor.

Sono de qualidade

Sete a nove horas de sono por noite durante o período de DOMS não é opcional — é parte do protocolo de recuperação. O hormônio do crescimento secretado durante o sono profundo é o principal agente do reparo e remodelação das fibras musculares danificadas.

Massagem e foam roller

A massagem muscular e o uso de foam roller — rolo de espuma para automassagem — têm evidência moderada de redução da intensidade e duração da DOMS. O mecanismo exato ainda não está completamente elucidado, mas provavelmente envolve melhora da circulação local, redução da tensão fascial e modulação da percepção da dor pelo sistema nervoso.

O foam roller é especialmente acessível — uma sessão de 10 a 15 minutos de rolamento lento e controlado sobre os músculos afetados, com pausa nos pontos de maior tensão, pode reduzir perceptivelmente a rigidez muscular e a dor à palpação.

Banho de contraste — água quente e fria alternadas

Alternar entre água quente e fria durante o banho — 1 a 2 minutos de água quente seguidos de 30 a 60 segundos de água fria, repetidos três a cinco vezes — é uma estratégia usada amplamente no esporte de alto rendimento para reduzir a inflamação e melhorar a circulação. A evidência científica é moderada, mas o método é seguro, prático e relativamente bem tolerado pela maioria das pessoas.

Imersão em água fria — crioterapia

Banhos de imersão em água fria entre 10 e 15 graus Celsius por 10 a 15 minutos têm evidência de redução da DOMS — especialmente no contexto esportivo de alta performance. O mecanismo envolve vasoconstrição seguida de vasodilatação reativa, redução da resposta inflamatória local e modulação da percepção de dor.

A limitação prática é o desconforto do procedimento e a dificuldade de acesso a temperaturas tão baixas em contextos domésticos. Banhos frios de chuveiro — mesmo que não cheguem a 10 graus — têm algum efeito similar e são mais acessíveis.

Creatina

A creatina monohidratada — o suplemento com maior evidência científica entre todos os esportivos — tem evidência de redução da DOMS além de seus benefícios bem documentados de força e hipertrofia. O mecanismo envolve redução do dano muscular induzido pelo exercício e melhora da recuperação celular. Para quem já usa creatina regularmente, esse é um benefício adicional ao protocolo de treino.

Terapia de calor

Aplicar calor local — bolsa de água quente, compressa aquecida — nos músculos com DOMS aumenta o fluxo sanguíneo local e reduz a rigidez muscular. É especialmente eficaz para reduzir a sensação de rigidez pela manhã, quando os músculos estão frios após horas de inatividade.

7. O que fazer e o que evitar quando estiver com dor muscular tardia

Saber como se comportar durante a DOMS é tão importante quanto saber como preveni-la. Algumas escolhas comuns pioram a situação — outras aceleram a recuperação.

O que fazer

Continuar se movimentando com atividade leve é a primeira e mais importante recomendação. Ficar completamente imóvel durante a DOMS prolongra a rigidez e retarda a remoção dos metabólitos inflamatórios. Movimento leve é remédio.

Manter a alimentação proteica é fundamental — o reparo muscular precisa de aminoácidos e reduzir a ingestão proteica nos dias de dor por falta de apetite ou comodidade é um erro que prolonga a recuperação.

Priorizar o sono — especialmente nas noites seguintes ao treino que gerou DOMS — maximiza a ação do hormônio do crescimento no reparo tecidual.

Aplicar calor local nos músculos rígidos pela manhã ou antes de atividades que exigem amplitude de movimento reduz o desconforto e melhora a mobilidade temporariamente.

O que evitar

Treinar o mesmo grupo muscular com intensidade alta durante a DOMS intensa é o erro mais prejudicial. O músculo em processo de reparo tem capacidade reduzida de suportar estímulo intenso — e treinar com DOMS intensa aumenta o risco de lesão e pode comprometer o próprio processo de reparo que estava em andamento.

Isso não significa não treinar — significa não treinar com intensidade alta o músculo específico que está com dor. Treinar outros grupos musculares é completamente aceitável e frequentemente recomendado como forma de recuperação ativa.

Tomar anti-inflamatórios regularmente para treinar apesar da dor é uma prática que merece cautela. Anti-inflamatórios não esteroidais como ibuprofeno reduzem a inflamação — e a inflamação é parte do processo de adaptação muscular. Uso crônico de anti-inflamatórios pós-treino pode interferir com o crescimento muscular e a adaptação de longo prazo. Uso ocasional para dor muito intensa é aceitável, mas não deve virar rotina.

Exagerar no alongamento estático dos músculos com dor intensa pode agravar o desconforto — o músculo com microlesões ativas responde mal a tensão de alongamento excessiva. Mobilidade suave é benéfica — alongamento estático intenso sobre DOMS severa, não.

8. Quando a dor muscular é sinal de algo mais sério

A grande maioria das dores musculares pós-treino é DOMS — benigna, temporária e parte normal do processo de adaptação. Mas existem sinais de alerta que indicam algo além da dor tardia comum.

Urina escura — marrom ou cor de chá

Esse é o sinal de alerta mais sério e exige atenção imediata. Urina escura após treino muito intenso pode indicar rabdomiólise — condição em que a destruição massiva de células musculares libera mioglobina na corrente sanguínea, sobrecarregando os rins. A rabdomiólise pode ocorrer após treinos de volume extremamente alto em iniciantes — como alguns desafios virais que exigem centenas de repetições sem progressão adequada — e é uma emergência médica que exige hidratação agressiva e acompanhamento hospitalar.

Dor intensa e localizada em um ponto específico

A DOMS é tipicamente difusa — afeta toda a barriga muscular de forma homogênea. Dor muito localizada e intensa em um ponto específico, especialmente se acompanhada de inchaço localizado, hematoma, perda significativa de força ou sensação de "estalo" durante o treino, pode indicar distensão muscular ou ruptura parcial de fibras — que exige avaliação médica.

Dor que piora após 72 horas

A DOMS segue um padrão de melhora progressiva após o pico entre 24 e 48 horas. Dor que piora após 72 horas, em vez de melhorar, é incomum para DOMS e pode indicar lesão ou processo inflamatório que requer avaliação profissional.

Dor acompanhada de febre, calafrios ou mal-estar sistêmico

Esses sintomas não fazem parte da DOMS e podem indicar processos infecciosos ou inflamatórios sistêmicos que requerem avaliação médica.

Dor em articulações — não em músculos

A DOMS afeta músculos — não articulações. Dor intensa em joelhos, ombros, quadris ou outras articulações após o treino não é DOMS e pode indicar tendinite, bursite, lesão de cartilagem ou outros problemas articulares que exigem avaliação por ortopedista ou fisioterapeuta.

9. Dor muscular tardia e frequência de treino

Um dos dilemas mais práticos da DOMS é decidir quando voltar a treinar o mesmo grupo muscular — e como planejar a frequência de treino para minimizar o impacto da dor na qualidade das sessões.

Esperar a dor zero para treinar novamente?

Não necessariamente. Pesquisas mostram que é possível treinar um músculo com DOMS leve a moderada sem comprometer significativamente a recuperação ou os resultados — desde que a intensidade seja reduzida. Um treino de menor volume e carga sobre um músculo com DOMS moderada pode inclusive ter efeito positivo na recuperação por aumentar o fluxo sanguíneo local.

Para DOMS intensa — aquela que reduz significativamente a amplitude de movimento e a força muscular — esperar a resolução parcial antes de treinar com intensidade alta o mesmo grupo é a abordagem mais prudente para evitar lesão e garantir a qualidade do estímulo.

Como planejar o treino para minimizar conflitos com DOMS

A frequência de treino de dois a três dias por semana para cada grupo muscular — suportada como ótima pela literatura científica de hipertrofia — foi desenvolvida justamente considerando o tempo de recuperação de 48 a 72 horas entre estímulos.

Organizar o treino de forma que cada grupo muscular tenha pelo menos 48 horas entre sessões de alta intensidade é a estratégia que minimiza o conflito entre DOMS e frequência de treino. Divisões upper/lower quatro vezes por semana ou push/pull/legs seis vezes por semana são estruturas que naturalmente respeitam esse intervalo.

O efeito de adaptação ao treinamento excêntrico

Um dos fatos mais interessantes sobre DOMS é o efeito de proteção que se desenvolve com a repetição do estímulo. Após a primeira sessão que gerou DOMS intensa com um determinado exercício, a segunda sessão com o mesmo exercício gera menos dor — e as sessões subsequentes progressivamente menos ainda, até a dor praticamente desaparecer.

Isso não significa que o treino ficou menos eficaz — significa que o músculo se adaptou ao estímulo e a resposta inflamatória foi regulada para baixo. O crescimento muscular continua mesmo sem a dor perceptível.

10. FAQ — Perguntas frequentes

Dor muscular tardia significa que o treino foi bom? Não necessariamente. A DOMS indica que o músculo recebeu um estímulo novo ou mais intenso do que estava adaptado — o que frequentemente coincide com estímulo de crescimento. Mas ausência de DOMS não significa treino ruim ou ineficaz. Praticantes experientes frequentemente ganham músculo com treinos que não geram dor perceptível porque seus corpos se adaptaram ao estímulo. A DOMS é indicador de novidade — não de qualidade.

Ácido lático causa dor muscular tardia? Não. Essa é uma das maiores inverdades do universo fitness. O lactato é removido da circulação em até uma hora após o exercício — não pode causar dor que aparece 12 a 48 horas depois. A dor muscular tardia é causada por microlesões nas fibras musculares e pela resposta inflamatória subsequente.

Devo tomar anti-inflamatório para a dor muscular tardia? Com cautela. Anti-inflamatórios como ibuprofeno reduzem a dor, mas também podem interferir com o processo de adaptação muscular — que depende da resposta inflamatória. Uso ocasional para dor muito intensa é aceitável, mas uso regular pós-treino pode reduzir os ganhos musculares a longo prazo segundo pesquisas recentes.

Quanto tempo dura a dor muscular tardia? Para a maioria das pessoas e estímulos habituais de treino, a DOMS dura de 2 a 4 dias, com pico entre 24 e 48 horas após o treino. Treinos de volume muito alto, movimentos muito novos ou pessoas com recuperação mais lenta podem ter DOMS por até 5 a 6 dias. Dor que persiste além de sete dias raramente é DOMS e merece avaliação profissional.

Posso treinar com dor muscular tardia? Depende da intensidade da dor e do que você vai treinar. Treinar outros grupos musculares que não estão com dor é completamente aceitável e recomendado. Treinar com atividade leve o músculo com DOMS moderada pode inclusive acelerar a recuperação. Treinar com intensidade alta o músculo com DOMS intensa aumenta o risco de lesão e não é recomendado.

O alongamento previne ou elimina a dor muscular tardia? Não de forma significativa. Pesquisas sobre o efeito do alongamento na prevenção e no tratamento da DOMS mostram resultados inconsistentes e geralmente modestos. O alongamento tem benefícios reais para flexibilidade, mobilidade e bem-estar geral — mas não é uma estratégia eficaz para prevenir ou curar a dor muscular tardia especificamente.

Por que a dor piora no segundo dia e não no dia do treino? Porque a DOMS é causada pela resposta inflamatória às microlesões — não pelo dano imediato. A cascata inflamatória leva horas para atingir seu pico. O dano acontece durante o treino, mas a inflamação — e a dor que ela causa — só atinge seu máximo 24 a 48 horas depois, quando os mediadores inflamatórios estão em maior concentração no tecido muscular.